[SANTIAGO] Ensaio sobre uma morte

12/14/2006 08:33:00 PM / Posted by Daniel Alonso /

Estava na casa de meus amigos no Brasil quando a notícia chegou, pela voz de meu pai, que me ligou para dizer: "Ele morreu". A minha reação foi imediata, após pensar profundamente por 1 segundo perguntei para meu pai: "Será que vai ser feriado amanhã?"

Obviamente se tratava do Pinochet e minha total indiferença para com a morte do general é bem natural, não vivi no Chile na época da ditadura e não tenho amigos nem parentes que viveram, então para mim ele só é mais um cara com boas intenções e os métodos errados. Basicamente ele não gostava dos rumos do governo de Allende e usou a forçacracia para mudar a situação.

Agora, pensando racionalmente ele não foi o pior dos homens, afinal ele tem contabilizadas 3500 mortes e desaparecimentos, ou seja, na escala Adolf de malevolosidade ele deve ter uma pontuação de "rascunho de anti-cristo". Temos que ter em conta também que o cara não matou ninguém com as próprias mãos e também havia pessoas bem piores ao seu redor, aliás, acho que deve ser algo bem comum as pessoas ao redor do ditador acabarem sendo piores que ele...

Bom, agora voltando a minha experiência nesse evento histórico tão importante (para os chilenos ao menos), acabou que a presidenta, que tem uma certa avença com o general, não decretou luto oficial, e também se o fizesse nesse país onde até pouco tempo atrás se trabalhava oficialmente 50 horas por semana, não ia ter efeito nenhum (digo, nem um dia de feriado pra gente chorar a morte do pobre velhinho).

Ok, então, voltei para Santiago no voo da meia noite da Lan e cheguei as 5 da manhã, dormi uma horinha e fui para a Lan. Como moro ao lado da escola militar, local do funeral do véio, já imaginava algumas manifestações de raiva, outras de amor, enfim, uma guerra na rua e uma história legal para eu contar pros amigos. Então fui em direção ao local, como faço todo dia quando vou pro trabalho, e quando passo na frente não tem mais do que um dúzia de senhoras de uns 40 e 50 anos ali na fila com cartazes de apoio ao "Gran General".

Que fiasco.

Imaginava algo maior depois das confusões do dia anterior, mas enfim, fui pro trabalho criar valor para a empresa, e fiquei ali até umas 11:00 horas da noite.

Na volta é que tive alguma surpresa, o local estava totalmente tomado pela multidão, tanto que fecharam um dos sentidos da avenida de maior movimento da cidade.

E o que achei mais impressionante é que as pessoas que estavam ali apoiavam o falecido, todos gritavam estes gritos que os chilenos tanto gostam "Chi chi chi, le le le Viva Chile!" e suas variantes: "Pino-no-no Xê-xê-xê Viva Pinochet" Enfim, parecia uma entrada de estádio em final de campeonato, incluindo a fila quilometrica para entrar (os huevones esperavam mais de 4 horas para ver)

Agora eu que tinha pensando em ir ver o defunto e, quem sabe, tirar uma fotinho do lado, para mostrar para meus netos que eu participei da história e estive no funeral do "Pinoquem?!", resolvi tirar fotos de fora mesmo e ir dormir. Afinal, ficar 4 horas na fila só se ele tivesse matado alguém da minha familia ou se o U2 estivesse tocando do lado do caixão...

Decidi então subir no prédio do meu amigo, tirar uma foto aérea e ir dormir, já que, mesmo com a multidão ali, eu continuava meio decepcionado, porque, podem me chamar de mini-pinochet, mas eu esperava alguma carnificina....


E às 7 da manhã do dia seguinte ainda havia chileno na fila....

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